Em 30 segundos
- Young et al. (2015), metanálise de 42 estudos: TDAH em cerca de 26,2% dos adultos presos e 30,1% dos jovens em detenção.
- No mesmo trabalho, a prevalência foi maior com instrumentos de rastreio do que com entrevista diagnóstica; usando só entrevista diagnóstica, a estimativa foi de 25,5%.
- Segundo as pessoas autoras, isso equivale a cerca de dez vezes a prevalência em adultos da população geral e cinco vezes a de jovens.
- Beaudry et al. (2021), revisão com 47 estudos de 19 países: TDAH em cerca de 17% dos adolescentes detidos (17,3% dos meninos e 17,5% das meninas).
- Fazel e Favril (2024), só com amostras não selecionadas de adultos presos: 8,3%. Uma reanálise do mesmo ano, com critérios menos restritivos, chegou a 22,2%. A estimativa depende muito do método.
- Prevalência alta não significa que o TDAH cause crime. Os estudos medem frequência, não causa.
Vários estudos investigaram a frequência de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em pessoas privadas de liberdade. As metanálises ajudam a dimensionar a questão, mas chegam a números diferentes conforme o método.
Adultos e jovens presos: Young et al., 2015
Uma metanálise conduzida por Susan Young e colaboradores, publicada na Psychological Medicine, reuniu 42 estudos. A estimativa foi de cerca de 26,2% em adultos presos e 30,1% em jovens em detenção. Segundo as pessoas autoras, isso corresponde a cerca de dez vezes a prevalência em adultos da população geral e cinco vezes a de jovens.
Um detalhe de método muda a leitura dos números: a prevalência foi mais alta quando o TDAH foi identificado por instrumentos de rastreio (questionários que apontam suspeita) do que por entrevista diagnóstica (avaliação estruturada que confirma o diagnóstico). Usando apenas dados de entrevista diagnóstica, a estimativa foi de 25,5%, sem diferença significativa por gênero ou idade. Houve diferenças importantes entre países.
Adolescentes detidos: Beaudry et al., 2021
Uma revisão sistemática com metarregressão, publicada no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, atualizou os dados para adolescentes. Foram 47 estudos de 19 países, com cerca de 33 mil adolescentes. A prevalência de TDAH foi de 17,3% nos meninos e 17,5% nas meninas, e foi maior nos estudos publicados depois de 2006.
A diferença em relação aos 30,1% de 2015 reflete, em parte, critérios e métodos diferentes entre as revisões. Os dois trabalhos concordam no essencial: a prevalência em instituições de privação de liberdade é bem maior que na população geral.
Estimativas mais recentes divergem
Em 2018, uma metanálise com 102 estudos (Baggio et al.) estimou 26,2% em adultos detidos. Em 2024, Seena Fazel e Louis Favril refizeram a conta usando apenas estudos com amostras não selecionadas de adultos presos e dados diagnósticos robustos (11 estudos, cerca de 3.900 pessoas) e chegaram a 8,3%, cerca de 1 em cada 12. Uma reanálise do grupo de Baggio, com critérios menos restritivos, chegou a 22,2%.
A diferença mostra o quanto a estimativa depende de quem é avaliado e de como. Mesmo o menor número fica acima da prevalência na população geral usada como comparação nos estudos anteriores.
O que esses números não dizem
Prevalência alta não significa que o TDAH cause crime. Estudos de prevalência medem frequência, não causa. Uma leitura possível é que sintomas não reconhecidos e não tratados, como impulsividade e dificuldades escolares, somados a fatores sociais, aumentem vulnerabilidades ao longo da vida. Os estudos citados aqui não testaram essa hipótese.
Na prática, os achados reforçam a importância de identificar e tratar o TDAH em serviços de saúde que atendem pessoas privadas de liberdade.
Nota: este artigo é de divulgação científica. As estimativas variam conforme o método de identificação, o país e o tipo de instituição; não devem ser usadas para rotular pessoas com TDAH.
Referências
- EstudoYoung, S., Moss, D., Sedgwick, O., Fridman, M., & Hodgkins, P. (2015). A meta-analysis of the prevalence of attention deficit hyperactivity disorder in incarcerated populations. Psychological Medicine, 45(2), 247–258. DOI: 10.1017/S0033291714000762.
- EstudoBeaudry, G., Yu, R., Långström, N., & Fazel, S. (2021). An updated systematic review and meta-regression analysis: mental disorders among adolescents in juvenile detention and correctional facilities. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 60(1), 46–60. DOI: 10.1016/j.jaac.2020.01.015.
- EstudoBaggio, S., Fructuoso, A., Guimaraes, M., et al. (2018). Prevalence of Attention Deficit Hyperactivity Disorder in Detention Settings: A Systematic Review and Meta-Analysis. Frontiers in Psychiatry, 9, 331. DOI: 10.3389/fpsyt.2018.00331.
- EstudoFazel, S., & Favril, L. (2024). Prevalence of attention-deficit hyperactivity disorder in adult prisoners: An updated meta-analysis. Criminal Behaviour and Mental Health, 34(3), 339–346. DOI: 10.1002/cbm.2337.
- EstudoBaggio, S., & Efthimiou, O. (2024). Meta-analysis of the prevalence of attention-deficit hyperactivity disorder in prison: A comment on Fazel and Favril (2024) and reanalysis of the data. Criminal Behaviour and Mental Health, 34(4), 385–390. DOI: 10.1002/cbm.2347.
Médico psiquiatra · CRM-MG 58241 · RQE 37921
Escrito e revisado por Dr. Diego Tinoco (psiquiatra) · Como produzimos o conteúdo