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Traços autistas associam-se a um padrão de conectividade cerebral em crianças com autismo ou TDAH

Estudo na Molecular Psychiatry com 166 crianças com autismo ou TDAH encontrou um padrão de conectividade cerebral associado à intensidade dos traços autistas, nos dois diagnósticos. Para os sintomas de TDAH, não houve relação significativa. A parte genética foi inferida in silico, não medida nas crianças.

Fonte original
Molecular Psychiatry
Publicado
Atualizado
Tipo
Pesquisa
4minutos de leitura

Em 30 segundos

  • Estudo com 166 crianças de 6 a 12 anos, com diagnóstico principal de autismo ou de TDAH (sem autismo), publicado online em 23/10/2025 na Molecular Psychiatry.
  • Quanto maior a conectividade entre um nó da rede frontoparietal e um da rede de modo padrão, mais intensos os traços autistas, nos dois grupos e mesmo controlando os sintomas de TDAH.
  • Para os sintomas de TDAH, não houve relação significativa entre cérebro e comportamento.
  • 37% das crianças do grupo TDAH atingiram o ponto de corte de traços autistas do ADOS-2, sem preencher todos os critérios de autismo.
  • A análise genética foi feita in silico, com mapas de expressão gênica do Allen Human Brain Atlas (cérebros de doadores), e não com material das crianças do estudo.

Um estudo publicado online em 23 de outubro de 2025 na revista Molecular Psychiatry (edição de janeiro de 2026) investigou como os sintomas de autismo e de TDAH se relacionam com a forma como regiões do cérebro se comunicam em crianças. O resultado é mais específico do que parte da cobertura sugeriu: o padrão encontrado vale para os traços autistas, não para os sintomas de TDAH.

O que os pesquisadores investigaram

O estudo analisou 166 crianças verbais de 6 a 12 anos, com diagnóstico principal bem estabelecido de autismo ou de TDAH sem autismo.

Os traços autistas foram medidos por observação clínica (ADOS-2), e os sintomas de TDAH, por entrevista com os pais. Todas as crianças fizeram ressonância magnética funcional em repouso, que permite estimar como diferentes regiões do cérebro funcionam em conjunto (conectividade funcional).

Conectividade cerebral e traços autistas

A análise encontrou uma associação transdiagnóstica entre a intensidade dos traços autistas e a conectividade de dois pontos, sobretudo no hemisfério esquerdo: o giro frontal médio, na rede frontoparietal (ligada a controle cognitivo e atenção), e o córtex cingulado posterior, na rede de modo padrão (ligada a pensamento autorreferente e social).

Quanto maior a conectividade entre esses pontos, mais intensos os traços autistas, independentemente de a criança ter diagnóstico de autismo ou de TDAH e mesmo depois de controlar os sintomas de TDAH.

E os sintomas de TDAH?

Aqui está o ponto que costuma sumir nas manchetes: não houve relação estatisticamente significativa entre conectividade cerebral e sintomas de TDAH. Por isso não é correto dizer que o estudo revelou uma "conexão biológica entre autismo e TDAH". O que ele mostrou é que traços autistas se associam a um padrão cerebral que aparece nos dois grupos.

Traços autistas também aparecem no TDAH

No grupo com TDAH, 37% das crianças ficaram no ponto de corte de traços autistas do ADOS-2 ou acima dele, sem preencher todos os critérios de autismo. Isso é coerente com o que se observa na prática clínica: autismo e TDAH frequentemente compartilham características.

E os genes?

A parte genética precisa ser lida com cuidado. Os genes não foram medidos nas crianças. A equipe fez uma análise in silico: comparou o mapa cerebral encontrado com mapas de expressão gênica do Allen Human Brain Atlas, construídos a partir de cérebros de doadores adultos.

Nessa comparação, as regiões do padrão ligado aos traços autistas coincidiram com a expressão de genes com mais variantes descritas em autismo e TDAH e envolvidos em projeções neuronais. As pessoas autoras apresentam isso como hipótese para estudos genéticos futuros, não como prova de mecanismo.

O que isso muda na forma de entender essas condições

Os resultados apoiam uma abordagem transdiagnóstica, que estuda dimensões de sintomas além das categorias diagnósticas. Em outras palavras: crianças com diagnósticos diferentes podem compartilhar um mesmo padrão cerebral quando têm traços autistas parecidos.

Para famílias, isso ajuda a entender por que crianças com TDAH podem apresentar características do espectro autista, como dificuldades sociais ou interesses intensos, e por que vale avaliar essas características quando aparecem.

Limite

Limitações

É um estudo transversal, com amostra moderada e só com crianças verbais, o que limita a generalização. Conectividade funcional é uma medida indireta da atividade cerebral. E a análise genética é uma inferência a partir de atlas de outras pessoas, não uma medida nas crianças avaliadas.

Nota: este artigo é de divulgação científica e não substitui avaliação profissional. Os achados são de pesquisa e não servem como exame diagnóstico: não existe exame de imagem que diagnostique autismo ou TDAH.

Referências

  1. EstudoSegura, P., Pagani, M., Bishop, S. L., et al. (2025). Connectome-based symptom mapping and in silico related gene expression in children with autism and/or attention-deficit/hyperactivity disorder. Molecular Psychiatry, 31(1), 282–295 (online em 23/10/2025). DOI: 10.1038/s41380-025-03205-8.

Dr. Diego Tinoco Rodrigues

Médico psiquiatra · CRM-MG 58241 · RQE 37921

Escrito e revisado por Dr. Diego Tinoco (psiquiatra) · Como produzimos o conteúdo

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