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"Ondas do sono" no cérebro acordado: o que isso tem a ver com o TDAH?

Estudo publicado no Journal of Neuroscience em 2026 encontrou mais ondas cerebrais semelhantes às do sono durante a vigília em adultos com TDAH. Numa análise de mediação, essas ondas explicaram estatisticamente parte das diferenças de atenção entre os grupos. Como o estudo é transversal e pequeno, não prova causa.

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Pesquisa
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  • Adultos com TDAH (n=32) apresentaram maior densidade de ondas lentas semelhantes ao sono durante a vigília em comparação a neurotípicos (n=31).
  • Essas ondas foram mais pronunciadas em regiões parieto-temporais e se correlacionaram com mais erros de omissão, reação mais lenta e mais variável e mais sonolência.
  • Numa análise de mediação, a densidade dessas ondas explicou estatisticamente parte das diferenças de atenção entre os grupos. O desenho é transversal: não prova que as ondas causam as dificuldades.
  • Participantes com TDAH relataram mais divagação mental e mais episódios de "mente em branco".
  • O estudo não testou tratamento. A ideia de que tratar o sono (por exemplo, com TCC-I) reduziria essas ondas é uma hipótese a ser testada.

Se você tem TDAH, provavelmente já se perguntou: por que minha mente simplesmente "desliga" no meio de uma tarefa, mesmo quando estou descansado? Um estudo publicado em 2026 no Journal of Neuroscience traz uma pista sobre essa experiência tão familiar.

O que os pesquisadores investigaram?

O estudo investigou se adultos com TDAH apresentam maior quantidade de ondas cerebrais semelhantes às do sono durante o estado de vigília — ou seja, enquanto estão acordados — e se essas ondas explicam as dificuldades de atenção características do transtorno.

Para entender a pesquisa, é preciso conhecer um conceito central: o chamado "sono local". Essas ondas lentas semelhantes às do sono durante a vigília refletem uma desaceleração da atividade cortical e têm sido associadas a episódios breves de diminuição da atividade neuronal. Elas aumentam com o tempo que a pessoa passa acordada e têm sido relacionadas a flutuações na atenção sustentada.

Como o estudo foi feito?

Adultos com TDAH (n = 32) e sem TDAH (n = 31) completaram uma tarefa de atenção sustentada — o SART (Sustained Attention to Response Task) — enquanto o EEG registrava a atividade cerebral. Na tarefa, os participantes respondiam a sequências de números, devendo inibir a resposta quando o número 3 aparecia.

A cada 40 a 70 segundos, os participantes eram interrompidos com sondas de estado mental, perguntados sobre seu nível de foco, divagação mental e alerta.

O que foi encontrado?

No comportamento

Os indivíduos com TDAH apresentaram mais erros de comissão (responder quando não deveriam) e maior variabilidade no tempo de reação, em comparação com o grupo neurotípico. O grupo com TDAH também mostrou um aumento mais acentuado de erros de omissão ao longo dos blocos — consistente com uma maior fatigabilidade cognitiva.

Nos estados mentais

O grupo com TDAH reportou significativamente menos estados focados, mais episódios de divagação mental e mais "mente em branco". Um achado especialmente relevante: participantes neurotípicos relataram episódios "um pouco intencionais" de divagação, enquanto os participantes com TDAH relataram episódios "totalmente não intencionais". Isso sugere que, no TDAH, a mente não escolhe divagar — ela simplesmente vai.

Na sonolência

Participantes com TDAH relataram maior sonolência geral durante toda a tarefa, sem que o estudo tivesse imposto privação de sono (o sono das noites anteriores, porém, não foi medido).

As ondas do sono no cérebro acordado

Aqui está o coração da descoberta. O grupo com TDAH tinha menos ondas lentas de baixa amplitude, mas mais ondas de maior amplitude em comparação com os neurotípicos. A densidade global de ondas lentas foi sustentada e significativamente maior no grupo TDAH — com concentração mais pronunciada nos eletrodos parieto-temporais.

Uma maior densidade global de ondas lentas estava associada a mais erros de omissão, tempos de reação mais lentos e maior variabilidade no tempo de reação. O aumento nas regiões frontais e occipitais também foi preditivo de maiores índices de sonolência subjetiva.

O papel mediador: as ondas explicam as dificuldades de atenção?

A etapa central do estudo foi uma análise de mediação: a densidade de ondas lentas explica, ao menos em parte, a diferença de desempenho atencional entre os grupos? Estatisticamente, sim: a densidade de ondas lentas explicou parte das diferenças de atenção.

Os efeitos de mediação mais fortes apareceram para erros de omissão, tempo de reação e variabilidade do tempo de reação, com eletrodos significativos agrupados principalmente em regiões frontais e centro-parietais. Mas atenção: mediação em estudo transversal, com cerca de 30 pessoas por grupo, mostra uma associação compatível com esse caminho. Não prova que as ondas causam as dificuldades, nem a direção da relação.

E o tratamento?

Este estudo não avaliou medicação: participantes que usavam estimulantes suspenderam o remédio 72 horas antes dos testes. Por isso ele não diz nada sobre o efeito do tratamento nessas ondas.

Uma hipótese que decorre do achado, e que ainda precisa ser testada: se o "sono local" durante a vigília tem relação com a qualidade do sono, tratar dificuldades de sono no TDAH, por exemplo com a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I), poderia reduzir essas ondas. Cuidar do sono já faz sentido por outros motivos; o efeito específico sobre as ondas lentas não foi medido.

Limite

Limitações importantes

Apesar do período de abstinência de 72 horas, há pesquisas limitadas sobre efeitos residuais de estimulantes no desempenho cognitivo. A coorte predominantemente feminina contrasta com pesquisas típicas — ao mesmo tempo uma limitação e uma contribuição valiosa, já que mulheres com TDAH são historicamente sub-representadas. Como estudo transversal, não é possível determinar se o sono local representa um marcador de traço estável ou um estado transitório induzido pela tarefa. O estudo também não mediu o sono das noites anteriores nem controlou o horário do dia, o que importa para um achado sobre ondas de sono.

Análise do autor

Conclusão: o que isso significa para quem tem TDAH?

O achado mais relevante é que, neste estudo, adultos com TDAH mostraram mais ondas cerebrais semelhantes às do sono enquanto estavam acordados e tentando se concentrar, e essas ondas acompanharam as falhas de atenção. Isso conversa com a experiência de tantas pessoas que descrevem a mente "desligando" sem aviso, mas precisa ser confirmado em estudos maiores e longitudinais.

Essa linha de investigação abre portas importantes tanto para a compreensão do TDAH quanto para o desenvolvimento de intervenções mais direcionadas — incluindo um cuidado mais sério com a qualidade do sono como parte do manejo do transtorno.

Nota: Este artigo é de divulgação científica e não substitui avaliação ou orientação de profissional de saúde. Se você suspeita ter TDAH ou tem dúvidas sobre seu tratamento, consulte um médico ou psicólogo.

Referências

  1. EstudoPinggal, E., Jackson, J., Kusztor, A., Chapman, D., Windt, J., Drummond, S. P. A., Silk, T. J., Bellgrove, M. A., & Andrillon, T. (2026). Sleep-like slow waves during wakefulness mediate attention and vigilance difficulties in adult attention-deficit/hyperactivity disorder. Journal of Neuroscience, 46(15), e1694252025. DOI: 10.1523/JNEUROSCI.1694-25.2025.

Dr. Diego Tinoco Rodrigues

Médico psiquiatra · CRM-MG 58241 · RQE 37921

Escrito e revisado por Dr. Diego Tinoco (psiquiatra) · Como produzimos o conteúdo

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