TDAH e segurança no trabalho: revisão aponta risco 1,8 a 2,3 vezes maior de acidentes ocupacionais
Revisão sistemática de 29 estudos, publicada em junho de 2026, encontrou risco elevado de lesões ocupacionais entre pessoas adultas com TDAH — concentrado em indústria e construção civil. As intervenções eficazes descritas são majoritariamente ambientais e organizacionais, não individuais.
Resumo em 30 segundos
Revisão sistemática de 29 artigos revisados por pares sobre TDAH em adultos e lesões ocupacionais.
Risco de acidentes de trabalho de 1,8 a 2,3 vezes maior em comparação com pessoas neurotípicas.
As associações mais fortes aparecem em setores de alto risco: indústria de transformação e construção civil.
Intervenções descritas como eficazes: tratamento medicamentoso, realocação de função, feedback estruturado e modificações ambientais.
A revisão conclui pela necessidade de treinamento de segurança adaptado, ajustes de política organizacional e proteções legais — não de exclusão de pessoas neurodivergentes desses setores.
Este é um daqueles achados que precisam ser lidos com cuidado, porque podem ser facilmente distorcidos. Uma revisão sistemática publicada na edição de junho de 2026 do Journal of Safety Research analisou 29 artigos revisados por pares sobre a relação entre TDAH em adultos e lesões ocupacionais.
O que foi encontrado
Pessoas adultas com TDAH apresentaram risco de 1,8 a 2,3 vezes maior de sofrer lesões ocupacionais em comparação com colegas neurotípicos. As associações mais significativas concentraram-se em setores de alto risco — notadamente indústria de transformação e construção civil.
Os fatores contribuintes descritos incluem dificuldade de adesão a protocolos de segurança, comportamento impulsivo e distração.
Por que este dado NÃO deve ser usado para excluir ninguém
É importante ser explícito, porque dados assim já foram usados historicamente para justificar barreiras de contratação — o que seria, no Brasil, discriminatório.
Três razões para ler o achado corretamente:
• O risco é contextual, não intrínseco. Ele se concentra em ambientes específicos, com desenho de trabalho específico. Não é uma característica da pessoa que a acompanha em qualquer função.
• As intervenções eficazes descritas são majoritariamente ambientais e organizacionais: modificações do ambiente, feedback estruturado, realocação de função e tratamento medicamentoso quando indicado. Ou seja: o risco responde a mudanças no sistema de trabalho.
• A conclusão da revisão vai na direção oposta à exclusão. As recomendações são de treinamento de segurança adaptado, ajustes de política organizacional e proteções legais para trabalhadoras e trabalhadores neurodivergentes.
Como usar isso a seu favor
Para quem trabalha em ambientes de risco, este estudo é um argumento técnico útil para pedir ajustes — e não um motivo para esconder o diagnóstico.
Ajustes que a literatura sustenta e que costumam ser razoáveis de solicitar:
• checklists escritos em vez de instruções verbais longas, que sobrecarregam a memória de trabalho;
• feedback estruturado e frequente, em vez de correção esporádica;
• redução de interrupções e multitarefa em atividades críticas de segurança;
• atenção a turnos e privação de sono, que amplificam desatenção em qualquer pessoa e especialmente no TDAH;
• revisão de função ou de etapa do processo quando houver incompatibilidade específica.
O enquadramento jurídico no Brasil
Vale lembrar que o empregador tem dever legal de prover ambiente de trabalho seguro — obrigação que existe independentemente de diagnóstico. Quando há caracterização de deficiência, aplicam-se também as adaptações razoáveis previstas na Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015).
Nenhuma dessas normas autoriza recusar contratação com base em diagnóstico. O caminho legalmente correto diante de um risco identificado é adaptar — não excluir.
Nota: este artigo é de divulgação científica. Estudos observacionais mostram associações e não estabelecem causalidade direta. Para orientação sobre seu caso, consulte profissional de saúde ocupacional, o SESMT da sua empresa ou o sindicato da categoria.
Referências Científicas
- Min, S. N. (2026). Occupational injury risk and workplace safety challenges among adults with ADHD: A systematic review. Journal of Safety Research, 97, 473–478. DOI: 10.1016/j.jsr.2026.04.012.
- Krishnamoorthy, T., Das, S., & Thomas, N. (2026). Stigma in adults with ADHD: a systematic review of types, experiences, and potential implications for quality of life. Frontiers in Psychiatry, 17, 1783271. DOI: 10.3389/fpsyt.2026.1783271.