Em 30 segundos
- O PL 4225/23, dos deputados Alex Manente (Cidadania-SP), Amom Mandel (Republicanos-AM) e Any Ortiz (PP-RS), foi aprovado pela Câmara em 17 de junho de 2026, com relatoria da deputada Andreia Siqueira (PSB-PA).
- O texto institui 17 diretrizes de atenção a pessoas com TDAH, dislexia e outros transtornos do neurodesenvolvimento e de aprendizagem.
- Prevê adaptações razoáveis em avaliações escolares, concursos públicos e processos seletivos: tempo adicional, ambiente com menos estímulos, ledor, tecnologia assistiva e flexibilização de formatos de prova.
- Não há equiparação automática a pessoa com deficiência: segundo a Agência Câmara, ela dependerá de avaliação biopsicossocial prévia por equipe multiprofissional.
- ATENÇÃO: ainda NÃO é lei. O projeto seguiu para análise do Senado Federal e pode ser alterado ou rejeitado. Na escola, já vale a Lei nº 14.254/2021.
Em 17 de junho de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei nº 4225/2023, que cria uma política nacional de atenção às pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento e de aprendizagem, com foco explícito em TDAH e dislexia. O projeto é de autoria dos deputados Alex Manente (Cidadania-SP), Amom Mandel (Republicanos-AM) e Any Ortiz (PP-RS), e foi aprovado na forma do substitutivo da relatora, deputada Andreia Siqueira (PSB-PA).
Antes de qualquer entusiasmo, o registro honesto: isso ainda não é lei. O texto foi aprovado em uma das duas casas do Congresso e agora segue para o Senado Federal, onde pode ser modificado, aprovado ou arquivado. Só depois disso viria a sanção presidencial. Estamos noticiando porque é um avanço relevante na tramitação — não porque haja direito novo exigível hoje.
O que o texto aprovado propõe
O projeto reúne 17 diretrizes. As mais concretas para a vida adulta neurodivergente estão no capítulo de adaptações razoáveis em avaliações, concursos públicos e processos seletivos:
- tempo adicional para realização de provas;
- ambiente com menos estímulos distratores;
- oferta de ledor (pessoa que lê o material para a candidata ou candidato);
- uso de recursos de tecnologia assistiva;
- flexibilização do formato da avaliação.
Na frente educacional, o texto prevê identificação precoce de sinais nas redes de ensino e de saúde, encaminhamento para avaliação diagnóstica, elaboração de plano educacional individualizado e articulação entre escola e serviços de saúde para acompanhamento continuado. Há ainda diretrizes de formação profissional continuada e de fomento à pesquisa científica.
E a equiparação a pessoa com deficiência?
O texto aprovado não equipara automaticamente TDAH e dislexia a deficiência. Segundo a Agência Câmara, a equiparação às pessoas com deficiência dependerá de avaliação biopsicossocial prévia, feita por equipe multiprofissional. Ou seja: o critério seria o impacto funcional em cada caso, não o diagnóstico sozinho.
O que já existe hoje: a Lei nº 14.254/2021
TDAH e dislexia não estão sem base normativa federal. A Lei nº 14.254/2021 já garante acompanhamento integral a educandos com dislexia, TDAH ou outro transtorno de aprendizagem na educação básica, com identificação precoce, encaminhamento e apoio educacional. Segundo a Agência Câmara, a própria relatora lembrou que essa lei já prevê acompanhamento integral para alunos com dislexia ou TDAH.
O que falta é o que está fora da escola. Diferentemente do TEA, equiparado a deficiência para todos os efeitos legais pela Lei nº 12.764/2012, pessoas com TDAH e dislexia costumam precisar negociar caso a caso adaptações em concurso, vestibular ou avaliação profissional.
Um marco legal explícito para essas situações reduziria essa insegurança. Adaptações razoáveis não são vantagem competitiva: são ajustes de acesso, para que a prova meça o conhecimento da pessoa e não a sua tolerância a ruído, a formulários densos ou a pressão de tempo.
O que fazer enquanto isso
Se você precisa de adaptações hoje, o caminho continua sendo o das normas já vigentes: a Lei nº 14.254/2021 na educação básica; o edital do certame (que costuma ter prazo específico e improrrogável para pedir atendimento especializado); a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) quando houver caracterização de deficiência pela avaliação biopsicossocial; e laudo profissional descrevendo funcionalmente as barreiras e os apoios necessários, não apenas o código da CID.
Na última verificação (outubro de 2026), o projeto tinha chegado ao Senado em julho de 2026 e aguardava despacho. Vamos acompanhar a tramitação e atualizar este Radar quando houver movimentação relevante.
Nota: este texto é informativo e não substitui orientação jurídica individualizada. O acompanhamento oficial da tramitação pode ser feito no portal da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.
Referências
- NotíciaCâmara dos Deputados (2026). Câmara aprova criação da Política de Atenção às Pessoas com Transtornos do Neurodesenvolvimento — PL 4225/23 (aprovado em 17/06/2026; relatoria: dep. Andreia Siqueira). Agência Câmara de Notícias.
- LeiBrasil (2021). Lei nº 14.254, de 30 de novembro de 2021 — acompanhamento integral para educandos com dislexia, TDAH ou outro transtorno de aprendizagem. Presidência da República.
Médico psiquiatra · CRM-MG 58241 · RQE 37921
Escrito e revisado por Dr. Diego Tinoco (psiquiatra) · Como produzimos o conteúdo