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Laudo de autismo com validade indeterminada: por que isso ainda não é lei (e o que está em tramitação)

Circula com frequência a informação de que o laudo de TEA e a CIPTEA já teriam validade permanente. Não têm: pela Lei 13.977/2020, a CIPTEA vale 5 anos. Há dois projetos em andamento no Congresso, o PL 507/2023, aprovado na Câmara em 2023, e o PL 1.414/2025, aprovado numa comissão do Senado em maio de 2026. Nenhum virou lei.

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Atualizado
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Legislação · Tramitação
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  • ATENÇÃO: na última verificação (outubro de 2026), a validade indeterminada do laudo de TEA e da CIPTEA NÃO é lei federal. São projetos em tramitação. Alguns estados, como Goiás, já têm leis próprias, que valem só na esfera estadual.
  • Regra vigente: a Lei nº 13.977/2020 (Lei Romeo Mion) fixa validade de 5 anos para a CIPTEA, com revalidação pelo mesmo número.
  • PL 1.414/2025 (Senado), de autoria do senador Alan Rick: aprovado na Comissão de Direitos Humanos (CDH) em 27/05/2026, com relatoria do senador Flávio Arns e Emenda nº 1-CDH. Desde 29/05/2026 aguarda designação de relatoria na Comissão de Assuntos Sociais (CAS), que decide em caráter terminativo.
  • PL 507/2023 (Câmara), de autoria dos deputados Yandra Moura e Felipe Becari, com substitutivo da relatora Amália Barros: aprovado pela Câmara em 10/05/2023. No Senado, foi despachado à CDH em outubro de 2025; desde 12/03/2026, a relatoria é da senadora Mara Gabrilli. Depois da CDH, ainda passa pela CAS.
  • O conteúdo proposto: avaliação biopsicossocial com validade indeterminada em casos permanentes ou irreversíveis (5 anos nos reversíveis ou progressivos) e CIPTEA indeterminada para quem tiver 18 anos ou mais na emissão, e de 10 anos para menores de idade.

Poucos temas geram tanta confusão nos grupos de famílias e de pessoas autistas quanto este. A cada poucos meses volta a circular a mensagem de que "o laudo agora vale para sempre" ou que "a CIPTEA não precisa mais ser renovada". Vale um esclarecimento direto, porque a informação errada aqui custa caro — em consulta, em perícia, em benefício negado.

O ponto principal, sem rodeios

Na última verificação (outubro de 2026), a validade indeterminada do laudo de TEA e da CIPTEA não é lei federal. O que existe são projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional. Projeto aprovado em comissão não é lei; projeto aprovado em uma das casas também não é.

Atenção: alguns estados e municípios já têm leis próprias que dão validade indeterminada ao laudo de TEA para serviços e benefícios estaduais ou municipais. Goiás é um exemplo, com a Lei estadual nº 21.034/2021. Essas leis não valem para órgãos federais, como o INSS, nem mudam a validade da CIPTEA definida em lei federal. Confira a legislação do seu estado e do seu município.

A regra que vale hoje para a CIPTEA

A CIPTEA (Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista) foi criada pela Lei nº 13.977/2020 (Lei Romeo Mion), que incluiu o art. 3º-A na Lei nº 12.764/2012. O § 3º desse artigo diz que a CIPTEA tem validade de 5 anos, com dados cadastrais atualizados, e deve ser revalidada com o mesmo número. É essa a regra federal em vigor enquanto os projetos não forem aprovados.

O que está em tramitação

PL 1.414/2025 — no Senado

De autoria do senador Alan Rick (União-AC), o projeto foi aprovado na Comissão de Direitos Humanos (CDH) em 27 de maio de 2026, com relatoria do senador Flávio Arns (PSB-PR) e parecer favorável com Emenda nº 1-CDH.

Em 28 de maio de 2026, encerrada a relatoria na CDH, a matéria foi remetida à Comissão de Assuntos Sociais (CAS). Desde 29 de maio de 2026, aguarda a designação de relator ou relatora na CAS.

Um detalhe processual relevante: a CAS tem competência para decisão terminativa. Na prática, se aprovado ali e não houver recurso para o plenário, o texto pode seguir direto para a Câmara dos Deputados sem passar pelo plenário do Senado — o que encurtaria o caminho.

PL 507/2023 — na Câmara, depois no Senado

Há um segundo projeto, mais antigo, tratando de matéria semelhante. O PL 507/2023, de autoria dos deputados Yandra Moura (União-SE) e Felipe Becari (União-SP), foi aprovado pela Câmara dos Deputados em 10 de maio de 2023, na forma de substitutivo da relatora Amália Barros (PL-MT), e remetido ao Senado.

No Senado, o projeto chegou em maio de 2023, mas só foi despachado à Comissão de Direitos Humanos (CDH) em outubro de 2025. Desde 12 de março de 2026, a relatoria está com a senadora Mara Gabrilli. Depois da CDH, o texto ainda passa pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS). Passados mais de três anos da aprovação na Câmara, ainda não houve votação final. É um retrato honesto de quanto tempo esse tipo de mudança leva.

O que os projetos propõem

O conteúdo, em linhas gerais, é convergente:

  • Avaliação biopsicossocial: validade indeterminada nos casos de deficiência permanente ou irreversível; validade de 5 anos nos casos reversíveis ou progressivos.
  • CIPTEA (Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista): validade indeterminada para quem tiver 18 anos ou mais no momento da emissão, e de 10 anos para menores de 18.
  • Vedação à exigência de nova avaliação apenas para revalidar a carteira.

Por que isso importa tanto

Autismo é uma condição do neurodesenvolvimento que acompanha a pessoa ao longo da vida; em adultos, o diagnóstico é estável. Exigir reavaliação periódica para comprovar algo que não vai deixar de existir é uma barreira burocrática com custo real: consulta que demora meses para conseguir, deslocamento, honorários, dias de trabalho perdidos — e, com frequência, interrupção de benefícios no intervalo.

Em crianças muito pequenas, o quadro pode mudar mais. Num estudo com 213 crianças diagnosticadas entre 1 e 3 anos de idade, cerca de 37% não preenchiam mais os critérios de autismo entre os 5 e os 7 anos. Isso ajuda a entender por que os projetos preveem prazo de 10 anos para a CIPTEA de menores de idade.

A exigência de avaliação atualizada aparece com frequência em pedidos de BPC/LOAS, aposentadoria por incapacidade e outros benefícios que envolvem comprovação de impedimento de longo prazo. Validade permanente traria estabilidade documental em processos administrativos e judiciais.

O que vale hoje, na prática

Enquanto os projetos tramitam, a CIPTEA segue com validade de 5 anos, e a exigência de laudo atualizado depende do órgão ou serviço específico que solicita o documento. Recomendações práticas:

  • Confirme a exigência na fonte — INSS, secretaria estadual ou municipal, plano de saúde, instituição de ensino — em vez de assumir uma regra geral que ainda não existe.
  • Guarde os laudos antigos. Mesmo quando se pede documento atualizado, o histórico documenta a permanência da condição ao longo do tempo.
  • Peça laudos funcionais, que descrevam barreiras e apoios necessários — e não apenas o código da CID. É o que dialoga com o modelo biopsicossocial adotado pela Lei Brasileira de Inclusão.
  • Confira o procedimento de renovação da CIPTEA no órgão emissor. A emissão é feita pelos estados, pelo Distrito Federal e pelos municípios, que organizam o pedido e a revalidação.

Vamos acompanhar a tramitação na CAS e atualizar este Radar quando houver movimentação relevante.

Nota: este texto é informativo, reflete a situação de tramitação verificada na data da última atualização e não substitui orientação jurídica individualizada. A tramitação pode ser acompanhada nos portais oficiais do Senado Federal e da Câmara dos Deputados.

Referências

  1. NotíciaSenado Federal — Agência Senado (2026). CDH aprova validade indeterminada para avaliação de deficiência permanente — PL 1.414/2025 (autoria: sen. Alan Rick; relatoria: sen. Flávio Arns; aprovado em 27/05/2026). Agência Senado.
  2. NotíciaCâmara dos Deputados — Agência Câmara de Notícias (2023). Câmara aprova prazo de validade indeterminado para laudo atestando autismo ou deficiência permanente — PL 507/2023 (relatoria: dep. Amália Barros; aprovado em 10/05/2023). Agência Câmara de Notícias.
  3. Projeto de leiSenado Federal (2026). PL 507/2023 — ficha de tramitação no Senado (despacho à CDH em 30/10/2025; relatoria da sen. Mara Gabrilli desde 12/03/2026; segue depois para a CAS). Senado Federal — Atividade Legislativa.
  4. NotíciaAssembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego) (2021). Lei, aprovada pela Assembleia, que elimina prazo de validade do laudo médico para pessoas com autismo é sancionada (Lei estadual nº 21.034/2021). Portal da Alego.
  5. EstudoHarstad, E., Hanson, E., Brewster, S. J., et al. (2023). Persistence of Autism Spectrum Disorder From Early Childhood Through School Age. JAMA Pediatrics, 177(11), 1197–1205.
  6. LeiBrasil (2020). Lei nº 13.977, de 8 de janeiro de 2020 (Lei Romeo Mion) — institui a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea). Presidência da República.

Dr. Diego Tinoco Rodrigues

Médico psiquiatra · CRM-MG 58241 · RQE 37921

Escrito e revisado por Dr. Diego Tinoco (psiquiatra) · Como produzimos o conteúdo

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