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Memória de trabalho no TDAH: por que você esquece no caminho

Memória de trabalho é o que segura uma informação enquanto você a usa. Entenda por que ela falha no TDAH, o que a pesquisa mostra e como externalizar sem culpa.

Publicado
7minutos de leitura
Neste artigo

Em resumo

  • Memória de trabalho é a capacidade de segurar e manipular uma informação por alguns segundos enquanto você faz algo com ela.
  • Meta-análises mostram que adultos com TDAH têm, em média, desempenho menor nessa função, o que ajuda a explicar por que é tão comum esquecer o que ia fazer no meio do caminho.
  • Não é falta de inteligência nem de atenção ao outro; é uma "mesa de trabalho" menor, que lota rápido.
  • A estratégia mais eficaz não é treinar a cabeça, e sim tirar coisas dela: capturar no ato, um lugar só, menos passos por vez.

Você levanta para pegar algo na cozinha, chega lá e não lembra o que era. Abre uma aba do navegador e esquece por que abriu. Está no meio de uma frase e o assunto some. Se isso acontece com você o tempo todo, uma parte importante da explicação não é desleixo: é a memória de trabalho, uma função executiva que, no TDAH, tende a ter capacidade menor, em média.

Memória de trabalho é o sistema que segura uma informação por alguns segundos enquanto você a usa. É a "mesa de trabalho" da mente: cabe pouca coisa em cima, e o que não é usado logo cai. Quando essa mesa é menor ou mais instável, o que estava nela desaparece no meio do caminho, literalmente.

Neste artigo, explico o que é memória de trabalho, o que a pesquisa em adultos com TDAH mostra sobre ela, como isso aparece no cotidiano e, principalmente, o que fazer, porque a solução não é "tentar lembrar melhor".

O que é memória de trabalho

Não é a memória de longo prazo, que guarda o nome da sua professora da segunda série. Também não é apenas a memória de curto prazo, que repete um número de telefone. Memória de trabalho é segurar uma informação e, ao mesmo tempo, fazer algo com ela: manter em mente os ingredientes enquanto lê a receita, lembrar a pergunta enquanto pensa na resposta, guardar o que a pessoa disse enquanto formula a sua réplica.

Ela tem duas partes principais que aparecem nos estudos: uma verbal, que lida com palavras e números, e uma visuoespacial, que lida com imagens, posições e caminhos. As duas são limitadas em todo mundo. A diferença é quanto cabe e por quanto tempo a informação fica estável.

A memória de trabalho é uma das funções executivas, ao lado da inibição, da flexibilidade e do planejamento. Quando ela falha, as outras funções também sofrem, porque planejar depende de manter os passos em mente.

O que a pesquisa mostra sobre memória de trabalho no TDAH

Uma meta-análise de Alderson e colegas (2013) reuniu estudos com adultos com TDAH e encontrou desempenho menor, em média, tanto na memória de trabalho verbal quanto na visuoespacial, em comparação com adultos sem TDAH. A diferença aparece na maioria dos estudos, com tamanho que varia conforme a tarefa usada, e também varia de pessoa para pessoa: algumas têm prejuízo maior, outras quase nenhum.

Antes disso, Boonstra e colegas (2005) já haviam mostrado, em outra meta-análise, que adultos com TDAH apresentam dificuldades em várias funções executivas, ou seja, essas dificuldades não se restringem à infância. A revisão de Faraone e colegas (2015) descreve o TDAH como uma condição do neurodesenvolvimento em que essas alterações executivas fazem parte do quadro, ligadas a redes cerebrais de atenção e controle.

Vale dizer o que esses estudos não dizem: eles não mostram falta de inteligência, e não mostram que toda pessoa com TDAH tem memória de trabalho ruim. Mostram uma tendência de grupo, que ajuda a entender por que a experiência de "esquecer no meio do caminho" é tão comum.

Como isso aparece no dia a dia

A memória de trabalho limitada raramente é percebida como tal. Ela é percebida como um monte de pequenos problemas sem conexão aparente:

  • Entrar num cômodo e esquecer o que foi fazer.
  • Perder o fio de uma conversa ou de uma leitura quando alguém interrompe.
  • Esquecer instruções com vários passos: "vai lá, pega isso, depois liga para fulano".
  • Fazer contas de cabeça e perder os números no meio.
  • Começar a escrever uma mensagem e esquecer o que queria dizer.
  • Abrir várias abas e tarefas ao mesmo tempo e não lembrar por quê.
  • Deixar a comida no fogo ao ir "só resolver uma coisinha".

O detalhe importante: a informação não some porque você não se importa. Ela some porque outra coisa entrou na mesa e empurrou a anterior. Qualquer interrupção, som, pensamento ou notificação tem esse poder. Por isso, "prestar mais atenção" não resolve; a mesa continua do mesmo tamanho.

Por que esforço não é a resposta

Quando a memória de trabalho falha, a tendência é se cobrar mais. Mas se cobrar consome exatamente o recurso que está em falta. Ansiedade, cansaço, sono ruim e emoções intensas ocupam espaço na mesa de trabalho, e sobra ainda menos para a tarefa.

A abordagem que funciona é outra: em vez de aumentar a mesa, diminuir o que precisa ficar em cima dela. É o que chamamos de externalizar. Tudo o que pode ser guardado fora da cabeça, em um papel, no celular, no ambiente, deixa de depender da memória de trabalho. Explicamos essa lógica em disfunção executiva: o que é e por que não é preguiça.

Estratégias para externalizar a memória de trabalho

Aqui estão as práticas que mais aparecem no consultório como úteis. Escolha uma ou duas para começar; adotar todas de uma vez também lota a mesa.

Capturar no ato

Quando uma ideia, tarefa ou lembrete aparece, anote na hora, antes de qualquer outra coisa. Não confie no "depois eu anoto". O intervalo entre pensar e anotar é exatamente onde a informação some.

Um lugar só

Várias listas, blocos e aplicativos diferentes criam uma nova tarefa de memória: lembrar onde você anotou. Escolha um único lugar de captura e leve-o para todos os contextos.

Menos passos por vez

Instruções e tarefas com muitos passos estouram a memória de trabalho. Quebre em partes menores e anote a sequência, para que o próximo passo esteja escrito, não lembrado. A ferramenta de fatiador de tarefas pode ajudar a praticar essa quebra.

Deixar pistas no ambiente

Objeto na porta para não esquecer de levar. Post-it na tela. Remédio ao lado da escova de dentes. O ambiente vira uma extensão da memória, sem esforço.

Dizer em voz alta

Repetir "vou à cozinha pegar a tesoura" ao levantar parece bobo, mas parece ajudar a manter a informação ativa na memória de trabalho.

Proteger o contexto

Se possível, feche o que não está usando, silencie notificações durante tarefas que exigem sequência e avise as pessoas ao redor quando precisa de alguns minutos sem interrupção.

Perguntas frequentes

O que é memória de trabalho?

É a capacidade de segurar uma informação por alguns segundos enquanto você a usa: manter uma instrução em mente ao executá-la, guardar um número enquanto faz a conta, lembrar a pergunta enquanto pensa na resposta. É uma das funções executivas e tem capacidade limitada em todo mundo.

Por que pessoas com TDAH esquecem o que iam fazer?

Porque a memória de trabalho, em média, tem capacidade menor no TDAH, segundo meta-análises com adultos. Na prática, isso faz com que interrupções derrubem com mais facilidade o que estava na cabeça: um estímulo novo empurra para fora a informação que estava ativa, e o que você ia fazer desaparece.

Dá para melhorar a memória de trabalho?

Programas de treino de memória de trabalho existem, mas a transferência do ganho para o dia a dia ainda é debatida na pesquisa. O que a terapia e a prática clínica mais recomendam é reduzir a carga: externalizar informações, quebrar tarefas e organizar o ambiente para que menos coisas dependam de lembrar.

Memória de trabalho ruim é sinal de TDAH?

Não necessariamente. Estresse, sono ruim, ansiedade, depressão e outras condições também afetam a memória de trabalho. O diagnóstico de TDAH é clínico, feito por profissional habilitado, e leva em conta a história de vida inteira, não um único sintoma.

Para lembrar

Esquecer no meio do caminho não é desleixo, e não se resolve com mais cobrança. É uma mesa de trabalho pequena, que lota rápido. A saída é tirar coisas dela: anotar no ato, ter um lugar só, quebrar em passos, deixar pistas pelo caminho. Um próximo passo possível: escolher hoje um único lugar de captura e usá-lo pelos próximos sete dias, sem exigir perfeição.

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Referências

  1. Alderson RM, Kasper LJ, Hudec KL, Patros CHG (2013). Attention-deficit/hyperactivity disorder (ADHD) and working memory in adults: a meta-analytic review. Neuropsychology, 27(3), 287–302
  2. Boonstra AM, Oosterlaan J, Sergeant JA, Buitelaar JK (2005). Executive functioning in adult ADHD: a meta-analytic review. Psychological Medicine, 35(8), 1097–1108
  3. Faraone SV, Asherson P, Banaschewski T, et al. (2015). Attention-deficit/hyperactivity disorder. Nature Reviews Disease Primers, 1, 15020

Dr. Diego Tinoco

Médico Psiquiatra · CRM-MG 58241

Escrito e revisado por Dr. Diego Tinoco (psiquiatra) · Como produzimos o conteúdo

Verbetes mencionados

  • Disfunção executiva

    Dificuldade persistente de iniciar, planejar, organizar, priorizar ou concluir tarefas, que não se explica por falta de vontade.

  • TDAH

    Transtorno do neurodesenvolvimento com padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e/ou impulsividade que interferem no funcionamento diário.

  • Memória de trabalho

    Sistema que mantém uma informação ativa por alguns segundos enquanto você a usa. No TDAH, costuma ter capacidade menor, em média.

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