Neste artigo
Em resumo
- O STJ fixou tese vinculante (Tema 1.295, mar/2026) proibindo planos de saúde de limitar sessões de terapia multidisciplinar para pessoas com TEA.
- A Jurisprudência em Teses nº 259 do STJ (mai/2025) reúne julgados que reconhecem cobertura de equoterapia, musicoterapia e hidroterapia para TEA; é compilação, não precedente vinculante.
- O STF confirmou que escolas particulares não podem cobrar taxa extra de alunos com deficiência (ADI 5357, 2016).
- Servidores públicos estaduais e municipais têm direito a horário especial, sem compensação, quando têm filho ou dependente com deficiência ou são eles mesmos pessoas com deficiência, com a necessidade comprovada por junta médica oficial (STF Tema 1097, dez/2022, com trânsito em julgado em 12/04/2023).
- Empregados de empresas públicas e sociedades de economia mista (CLT) com filho autista têm direito à redução de jornada sem redução de salário (TST, Tema 138, mai/2025). Na empresa privada, a CLT não traz regra geral.
- Planos de saúde que cancelam contrato por causa do diagnóstico de TEA cometem ato ilícito e devem indenizar (STJ REsp 2.217.953/SP, fev/2026).
- A Lei nº 14.454/2022 permitiu cobertura fora do rol da ANS, e o STF (ADI 7265, set/2025) manteve a lei, mas exigiu cinco requisitos cumulativos.
- Para TDAH, não há decisão de tribunal superior que equipare o transtorno à deficiência; os resultados variam caso a caso.
- O STF derrubou por unanimidade a exclusão de autistas nível 1 e de pessoas com deficiência intelectual leve da alíquota zero de IBS/CBS na compra de veículos (ADIs 7779 e 7790, ago/2026).
Nos últimos anos, a Justiça brasileira firmou entendimentos importantes sobre os direitos das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Tribunais como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiram temas de saúde, educação, trabalho e tributos. Para o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o cenário é diferente: não há equiparação legal à deficiência, e as decisões variam caso a caso (veja a seção sobre TDAH).
As principais áreas contempladas por essas decisões são:
- Acesso à saúde e terapias
- Educação inclusiva
- Direitos trabalhistas das famílias
- Benefícios sociais
- Isenções tributárias
Essas decisões formam a jurisprudência — o conjunto de interpretações dos tribunais sobre como as leis devem ser aplicadas na prática. Conhecê-las é fundamental para que famílias, profissionais e pessoas neurodivergentes saibam como defender seus direitos.
O que é jurisprudência e por que ela importa para famílias neurodivergentes
Jurisprudência é o conjunto de decisões dos tribunais que interpretam como uma lei deve ser aplicada em situações concretas. Mesmo quando a lei já existe, muitas dúvidas surgem na prática. Por exemplo: planos de saúde podem limitar sessões de terapia? Escolas podem cobrar taxa extra para alunos autistas? Servidores públicos podem reduzir jornada para cuidar de filhos com TEA?
Quando essas questões chegam aos tribunais superiores, as decisões passam a orientar todo o país. No Brasil, os principais tribunais que consolidam essas interpretações são o STF (Supremo Tribunal Federal), responsável pela interpretação da Constituição, e o STJ (Superior Tribunal de Justiça), responsável pela interpretação das leis federais. Nem toda decisão tem o mesmo peso: teses de repercussão geral do STF e de recursos repetitivos do STJ são vinculantes; decisões de turmas e compilações como a Jurisprudência em Teses orientam, mas não obrigam os demais juízes.
Base legal dos direitos das pessoas neurodivergentes no Brasil
Antes de entender as decisões dos tribunais, é importante conhecer as leis que fundamentam esses direitos.
Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU)
Incorporada ao Brasil com status constitucional pelo Decreto Legislativo nº 186/2008 e Decreto nº 6.949/2009, a Convenção da ONU estabelece princípios como igualdade de oportunidades, inclusão social, acesso à educação e à saúde, e eliminação de discriminação.
Lei Berenice Piana — Lei nº 12.764/2012
Esta lei criou a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista e reconhece oficialmente que a pessoa com autismo é considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. Isso garante acesso a políticas de inclusão, prioridade em serviços, direitos educacionais e proteção contra discriminação.
Lei Brasileira de Inclusão — Lei nº 13.146/2015
O Estatuto da Pessoa com Deficiência ampliou direitos em diversas áreas, estabelecendo o direito à educação inclusiva, a proibição de discriminação, a obrigação de adaptação razoável e a proteção contra cobrança abusiva.
Jurisprudência sobre saúde: terapias, planos e tratamentos
A saúde é uma das áreas com mais decisões judiciais envolvendo autismo. Isso ocorre porque planos de saúde e o sistema público frequentemente recusam ou limitam terapias e medicamentos.
Planos de saúde não podem limitar sessões de terapia para autismo — STJ Tema 1.295
Durante muitos anos, planos de saúde impunham limites ao número de sessões de psicologia, terapia ocupacional e fonoaudiologia. Em março de 2026, a 2ª Seção do STJ fixou, em recurso repetitivo (Tema 1.295), tese vinculante que proíbe essa prática: é abusiva a limitação do número de sessões de terapia multidisciplinar — psicologia, fonoaudiologia, fisioterapia e terapia ocupacional — prescritas ao paciente com TEA. A decisão foi aprovada por unanimidade e tem efeito vinculante para milhares de processos em todo o país.
Base legal utilizada
- Código de Defesa do Consumidor
- Lei dos Planos de Saúde (Lei nº 9.656/1998)
- Resoluções Normativas da ANS: RN 465/2021 (rol de procedimentos), RN 539/2022 (cobertura do método indicado para transtornos globais do desenvolvimento, como o TEA) e RN 541/2022 (fim do limite de sessões com psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e fisioterapeuta, para todos os diagnósticos)
Referência: STJ — Tema Repetitivo 1.295 — REsps 2.153.672 e 2.167.050 — Relator: Ministro Antonio Carlos Ferreira (acórdão publicado em 30/03/2026)
Musicoterapia, equoterapia e hidroterapia — STJ Jurisprudência em Teses nº 259
Em maio de 2025, o STJ publicou a Edição 259 da Jurisprudência em Teses, sobre os direitos da pessoa com TEA. O STJ reuniu ali julgados que reconhecem a cobertura de equoterapia, musicoterapia e hidroterapia pelos planos de saúde no tratamento do TEA. A Jurisprudência em Teses é uma compilação de decisões do tribunal, não um precedente vinculante. Para terapias fora do rol da ANS, aplicam-se os requisitos definidos pelo STF na ADI 7265 (veja abaixo).
Referência: STJ — Jurisprudência em Teses nº 259 (publicada em maio de 2025). STJ Notícias
Planos de saúde não podem cancelar contrato por causa do autismo — STJ REsp 2.217.953/SP
Em fevereiro de 2026, a 3ª Turma do STJ decidiu que o cancelamento de proposta de contratação de plano de saúde motivado pelo diagnóstico de TEA configura ato ilícito e gera direito à indenização por dano moral. No caso julgado, uma operadora celebrou proposta de plano coletivo empresarial e, após entrevista médica que revelou que um dos beneficiários era uma criança autista, deixou de enviar as carteirinhas e de confirmar o contrato — conduta classificada pelo STJ como capacitismo omissivo. Segundo a imprensa, a criança precisava de tratamento diário e contínuo.
A relatora, Ministra Nancy Andrighi, concluiu que a finalidade social do contrato impõe à operadora a obrigação de colaborar para que a pessoa com deficiência acesse efetivamente o plano de saúde. A indenização foi fixada em R$ 10.000,00 por danos morais.
Referência: STJ — REsp 2.217.953/SP — Relatoria: Ministra Nancy Andrighi — publicado em fevereiro de 2026
Negativa de cobertura nem sempre gera indenização — STJ Tema 1.365
Em março de 2026, a 2ª Seção do STJ fixou, em recurso repetitivo, que a simples recusa indevida de cobertura pelo plano de saúde não gera, por si só, dano moral presumido. É preciso demonstrar outros elementos, como agravamento do quadro ou sofrimento que vá além do aborrecimento. A cobertura continua obrigatória; o que muda é a indenização.
Em junho de 2026, o STJ afetou outro repetitivo, o Tema 1.467, para decidir se a demora injustificada do plano em autorizar o tratamento prescrito equivale à recusa indevida para aplicar o Tema 1.365. Até o julgamento, os recursos especiais sobre esse ponto ficam suspensos.
Referência: STJ — Tema Repetitivo 1.365 — REsp 2.197.574/SP e REsp 2.165.670/SP — julgados em 11/03/2026 (Informativo de Jurisprudência nº 881). STJ — Tema Repetitivo 1.467 — afetado em 30/06/2026, pendente de julgamento.
Cobertura fora do rol da ANS: Lei nº 14.454/2022 e ADI 7265
A Lei nº 14.454/2022 permitiu que tratamentos fora da lista da ANS fossem cobertos em certas condições. O STF (ADI 7265, julgada em 18/09/2025) manteve a lei por 7 votos a 4, com interpretação conforme, mas exigiu requisitos cumulativos para a cobertura fora do rol:
- prescrição por médico ou odontólogo assistente habilitado;
- inexistência de negativa expressa da ANS ou de análise pendente de incorporação ao rol;
- inexistência de alternativa terapêutica adequada no rol;
- comprovação de eficácia e segurança com evidência científica de alto nível;
- registro na Anvisa.
Na prática, terapias que já estão no rol (como as sessões com psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e fisioterapeuta, sem limite desde a RN 541/2022) seguem cobertas. Para o que está fora do rol, o pedido precisa demonstrar os cinco requisitos.
Referência: STF — ADI 7265 — Plenário — julgada em 18/09/2025. LexML
Medicamentos e tratamentos pelo SUS
O direito à saúde é garantido pela Constituição Federal, e os tribunais podem determinar que o SUS forneça medicamentos. Para remédios registrados na Anvisa mas não incorporados ao SUS, porém, os critérios ficaram mais rígidos: é preciso, entre outros pontos, ter o pedido negado na via administrativa, não haver substituto no SUS, haver evidência científica de alto nível, comprovar a imprescindibilidade com laudo fundamentado e não ter condições de pagar. Em setembro de 2024, o STF concluiu os Temas 6 e 1.234 de repercussão geral, que fixaram critérios para pedidos judiciais de medicamentos registrados na Anvisa e não incorporados ao SUS, e editou as Súmulas Vinculantes 60 e 61 sobre o tema.
Jurisprudência sobre educação inclusiva
A escola é um dos principais locais onde surgem conflitos relacionados à inclusão de pessoas neurodivergentes. A Justiça brasileira possui decisões relevantes e consolidadas nessa área.
Escolas não podem cobrar taxa extra de alunos com deficiência — STF ADI 5357
Em junho de 2016, o Supremo Tribunal Federal julgou a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 5357), proposta pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen), que questionava dispositivos da Lei Brasileira de Inclusão proibindo a cobrança adicional de alunos com deficiência. Por 9 votos a 1, o STF manteve as regras da LBI e confirmou que a escola não pode cobrar valor adicional, sob relatoria do Ministro Edson Fachin.
O tribunal entendeu que a educação inclusiva é um direito fundamental, que o custo da inclusão deve ser absorvido pela escola, e que cobrar taxa extra é prática discriminatória. Na síntese do relator: “à escola não é dado escolher, segregar, separar, mas é seu dever ensinar, incluir, conviver”.
Referência: STF — ADI 5357 — Relator: Ministro Edson Fachin — Julgado em 09/06/2016
Direito ao mediador e profissional de apoio escolar
Tribunais reconhecem que alguns alunos neurodivergentes precisam de profissional de apoio escolar para auxiliar em dificuldades de atenção, regulação comportamental e organização das atividades. Quando existe indicação médica ou pedagógica, escolas públicas ou privadas podem ser obrigadas judicialmente a fornecer esse apoio, com base na Lei Berenice Piana (art. 3º, que prevê acompanhante especializado em caso de comprovada necessidade), no Decreto nº 8.368/2014 e na Lei Brasileira de Inclusão. Desde o Decreto nº 12.686/2025, a oferta do profissional de apoio é definida por estudo de caso na escola e não depende de laudo.
Jurisprudência sobre direitos trabalhistas das famílias neurodivergentes
Cuidar de uma criança com autismo ou outra neurodivergência pode exigir disponibilidade de tempo significativa. Por isso, tribunais analisaram e reconheceram direitos trabalhistas importantes relacionados a essa realidade.
Redução de jornada para servidores públicos — STF Tema 1097
Em dezembro de 2022, o STF julgou o Recurso Extraordinário 1.237.867, fixando a tese do Tema 1.097 de repercussão geral: servidores públicos estaduais e municipais têm direito à redução de jornada de trabalho para cuidar de filhos ou dependentes com deficiência, mesmo sem lei local específica prevendo o benefício. A tese estende a esses servidores o que já era garantido aos servidores federais pelo art. 98, §2º e §3º, da Lei 8.112/1990.
A tese vale também para o servidor que é ele mesmo pessoa com deficiência, inclusive autista. Nos dois casos, a necessidade é comprovada por junta médica oficial. A lei fala em “horário especial”, sem compensação de horário, e o tamanho da redução é definido caso a caso.
O caso-base envolveu uma servidora pública estadual que havia sido negada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que fundamentou sua decisão na ausência de lei estadual específica. O STF reverteu esse entendimento, reconhecendo que a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência — incorporada ao ordenamento brasileiro com status constitucional — prevalece sobre a omissão legislativa local.
Referência: STF — Tema 1097 — RE 1.237.867 — Relator: Ministro Ricardo Lewandowski — dez/2022 (trânsito em julgado em 12/04/2023)
Empregados de empresas públicas (CLT) — TST Tema 138
Em 16 de maio de 2025, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) fixou tese vinculante em incidente de recurso repetitivo (IRR, Tema 138): o empregado público com filho autista tem direito à redução de jornada, sem redução de salário e sem compensação de horário, por aplicação analógica do art. 98, §§ 2º e 3º, da Lei 8.112/1990. Vale para quem trabalha em empresas públicas e sociedades de economia mista, como Caixa, Correios e Banco do Brasil. Em junho de 2025, o Pleno do TST reafirmou a tese.
A tese não fixa um percentual: a extensão da redução é definida caso a caso. Ela trata de filho com TEA; para outras deficiências, o resultado ainda depende do caso.
Referência: TST — IRR Tema 138 — RR-0000594-13.2023.5.20.0006 — julgado em 16/05/2025 e reafirmado pelo Pleno em junho de 2025. TST
Empregados de empresas privadas
A CLT não traz regra geral de redução de jornada para quem tem filho com deficiência. Há decisões pontuais na Justiça do Trabalho e cláusulas em convenções coletivas. Para o seu caso, procure a Defensoria Pública, o sindicato da categoria ou um(a) advogado(a).
Benefícios tributários para pessoas com autismo e neurodivergência
A legislação brasileira prevê benefícios fiscais para pessoas com deficiência, e a jurisprudência tem garantido que esses direitos não sejam esvaziados por exigências burocráticas indevidas.
Isenção de IPI na compra de veículos
A Lei nº 8.989/1995 garante isenção de IPI na compra de carro novo por pessoas com deficiência e com TEA, com vigência até 31/12/2026. A lei não exige adaptação do veículo e cobre a pessoa com TEA mesmo quando ela não dirige (o pedido pode ser feito pelo representante legal). Para condutores, a 2ª Turma do STJ decidiu em maio de 2025 que a isenção não depende de restrição na CNH (REsp 2.185.814). É decisão de turma, que orienta mas não obriga outros juízes; a Receita pode continuar exigindo a restrição, e talvez seja preciso ir à Justiça. Detalhes na página de isenção de impostos para autistas.
STF derruba a exclusão do autismo nível 1 na alíquota zero de IBS/CBS — ADIs 7779 e 7790
A Lei Complementar nº 214/2025, que regulamenta a Reforma Tributária do consumo, condicionava a alíquota zero de IBS e CBS na compra de veículos a pessoas com deficiência mental severa ou profunda e a autistas de nível moderado ou grave — excluindo, na prática, as pessoas autistas de nível 1 de suporte.
Em 3 de agosto de 2026, o Plenário do STF concluiu o julgamento conjunto das ADIs 7779 (Instituto Nacional de Direitos da Pessoa com Deficiência Oceano Azul) e 7790 (Associação Nacional de Apoio às Pessoas com Deficiência), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Por unanimidade, a Corte declarou a nulidade parcial, com redução de texto, das expressões que funcionavam como filtro de acesso ao benefício, sob o fundamento de que a Constituição Federal não distingue beneficiários conforme a intensidade ou o tipo da deficiência.
⚠️ O que a decisão não faz
A decisão remove uma exclusão prévia, mas não gera deferimento automático. Permanecem exigíveis o laudo de avaliação, o reconhecimento administrativo prévio, o limite de valor do veículo (R$ 200 mil, com benefício sobre até R$ 100 mil da operação; valores de 2026, reajustados anualmente) e o intervalo mínimo de 3 anos entre aquisições. O alcance é restrito a IBS e CBS — os regimes de IPI, ICMS, IPVA e IOF seguem normas próprias e não foram alterados.
Isenção de ICMS e IPVA
Estados concedem isenções de ICMS e IPVA para pessoas com deficiência. Quando há negativa administrativa, famílias podem recorrer ao Judiciário. Os tribunais analisam o laudo médico, o grau de deficiência e a finalidade do veículo para determinar o direito à isenção.
TDAH: as decisões variam
Não há tese vinculante do STF ou do STJ que equipare o TDAH à deficiência. Como não há lei que faça essa equiparação de forma geral, os tribunais decidem caso a caso quando se pede, por exemplo, vaga reservada em concurso, tempo adicional em prova ou adaptação no trabalho. Há decisões nos dois sentidos, e o resultado costuma depender do laudo, do impacto funcional demonstrado e do entendimento de cada tribunal.
Algumas proteções não dependem desse enquadramento: a Lei nº 14.254/2021 garante acompanhamento integral a estudantes com TDAH na educação básica, e a RN 541/2022 da ANS acabou com o limite de sessões de terapia para todos os diagnósticos. O artigo TDAH é deficiência no Brasil? O que a lei diz hoje explica o cenário em detalhe.
Por que a jurisprudência avançou nos últimos anos
A mudança nas decisões judiciais ocorreu por uma combinação de fatores:
Reconhecimento científico
Maior reconhecimento científico da neurodivergência como condição clínica legítima com impacto real no funcionamento.
Fortalecimento legal
Aprovação da Lei Berenice Piana e da Lei Brasileira de Inclusão criou base sólida para reivindicações judiciais.
Mobilização de famílias
Atuação organizada de famílias e associações levou mais casos aos tribunais, consolidando precedentes favoráveis.
Modelo biopsicossocial
Adoção do modelo biopsicossocial de deficiência pelos tribunais: considera barreiras sociais, não apenas o diagnóstico médico isolado.
O modelo biopsicossocial considera não apenas o diagnóstico médico, mas também as barreiras sociais enfrentadas pela pessoa. Esse entendimento ampliou o reconhecimento de direitos mesmo em casos em que o laudo médico isolado seria insuficiente.
Conclusão: conhecer a jurisprudência é um direito e uma ferramenta
A jurisprudência brasileira avançou na proteção dos direitos das pessoas autistas. Decisões do STF, do STJ e do TST firmaram garantias em áreas como acesso a terapias, educação inclusiva, redução de jornada de servidores e empregados públicos, benefícios fiscais e combate à discriminação. Para o TDAH, o caminho ainda é mais caso a caso.
Apesar dos avanços, muitos desses direitos ainda precisam ser exigidos judicialmente. Por isso, conhecer a jurisprudência é fundamental para que famílias, profissionais e cidadãos neurodivergentes saibam como defender seus direitos — seja na conversa com o plano de saúde, na matrícula escolar, na relação com o empregador ou na busca por benefícios fiscais.
Vale lembrar que há projetos de lei em tramitação no Congresso que podem mudar essas regras. O PL 4.225/2023, aprovado na Câmara e em análise no Senado, cria uma política para pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento, como o TDAH, e condiciona a equiparação à deficiência a uma avaliação biopsicossocial. O PL 2.458/2025, aprovado nas comissões da Câmara e ainda sem passar pelo Senado, prevê redução de jornada na CLT para quem tem filho ou dependente com deficiência. Enquanto um projeto não for aprovado e sancionado, valem as regras descritas neste guia.
Principais fontes jurídicas citadas neste guia
- STJ — Tema Repetitivo 1.295 (acórdão publicado em 30/03/2026). Proíbe limitação de sessões de terapia multidisciplinar (psicologia, fonoaudiologia, fisioterapia e terapia ocupacional) para pacientes com TEA por planos de saúde. Disponível em: STJ Notícias.
- STJ — Jurisprudência em Teses nº 259 (publicada em maio de 2025). Compilação de julgados sobre direitos da pessoa com TEA, incluindo cobertura de equoterapia, musicoterapia e hidroterapia. Não é precedente vinculante. Disponível em: STJ Notícias.
- STF — ADI 7779 e ADI 7790 (julgadas em 03/08/2026). Relator: ministro Alexandre de Moraes. Declaram inconstitucionais, por unanimidade, os recortes por grau de deficiência e por nível de suporte do TEA na alíquota zero de IBS e CBS para aquisição de veículos (LC nº 214/2025). Disponível em: STF Notícias.
- STJ — REsp 2.217.953/SP — Relatoria: Ministra Nancy Andrighi (fev/2026). Cancelamento de plano de saúde por diagnóstico de TEA configura capacitismo omissivo e ato ilícito.
- STF — ADI 5357 — Relator: Ministro Edson Fachin (09/06/2016). Julgou improcedente a ação e confirmou a proibição da LBI de cobrar taxa extra de alunos com deficiência em escolas particulares. Disponível em: STF — ADI 5357.
- STF — Tema 1097 — RE 1.237.867 — Relator: Ministro Ricardo Lewandowski (dez/2022; trânsito em julgado em 12/04/2023). Aplica a servidores estaduais e municipais o horário especial do art. 98, §§ 2º e 3º, da Lei nº 8.112/1990: para quem tem filho, cônjuge ou dependente com deficiência e para o próprio servidor com deficiência, com a necessidade comprovada por junta médica oficial. STF — RE 1.237.867.
- TST — IRR Tema 138 — RR-0000594-13.2023.5.20.0006 (julgado em 16/05/2025; reafirmado pelo Pleno em junho de 2025). Empregado público com filho com TEA tem direito à redução de jornada, sem redução salarial e sem compensação de horário, por aplicação analógica do art. 98, §§ 2º e 3º, da Lei nº 8.112/1990. Disponível em: TST — tese do Tema 138.
- STJ — Tema Repetitivo 1.365 — REsp 2.197.574/SP e REsp 2.165.670/SP (julgados em 11/03/2026). A simples recusa indevida de cobertura pelo plano de saúde não gera, por si só, dano moral presumido (Informativo de Jurisprudência nº 881).
- STJ — Tema Repetitivo 1.467 (afetado em 30/06/2026, pendente de julgamento). Definir se a demora injustificada da operadora em autorizar o tratamento prescrito equipara-se à recusa indevida de cobertura, para fins do Tema 1.365. STJ.
- BRASIL. Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990. Art. 98, §§ 2º e 3º: horário especial para o servidor com deficiência e para o servidor com cônjuge, filho ou dependente com deficiência. Planalto.
- BRASIL. Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998. Planos e seguros privados de assistência à saúde (art. 14: ninguém pode ser impedido de participar de plano por causa da deficiência). Planalto.
- BRASIL. Decreto nº 8.368, de 2 de dezembro de 2014. Regulamenta a Lei nº 12.764/2012 (art. 4º, §2º: acompanhante especializado). Planalto.
- BRASIL. Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025 (alterado pelo Decreto nº 12.773/2025). Política Nacional de Educação Especial Inclusiva (art. 14, §2º: oferta do profissional de apoio sem exigência de laudo). Planalto.
- BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012 (Lei Berenice Piana). Disponível em: Planalto.
- BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015 (Lei Brasileira de Inclusão). Disponível em: Planalto.
- BRASIL. Decreto Legislativo nº 186/2008 e Decreto nº 6.949/2009. Incorporam a Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência com status constitucional.
- BRASIL. Lei nº 14.454, de 21 de setembro de 2022. Critérios para cobertura de procedimentos fora do rol da ANS. Planalto.
- STF — ADI 7265 (julgada em 18/09/2025). Manteve a Lei nº 14.454/2022 com cinco requisitos cumulativos para cobertura fora do rol. LexML.
- ANS — RN 539/2022 e RN 541/2022. Cobertura do método indicado para transtornos globais do desenvolvimento e fim do limite de sessões com psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e fisioterapeuta. Texto das resoluções: RN 539/2022 e RN 541/2022.
- STF — Temas 6 e 1.234 de repercussão geral (set/2024) e Súmulas Vinculantes 60 e 61. Critérios para fornecimento judicial de medicamentos não incorporados ao SUS. CNJ — Guia rápido.
- BRASIL. Lei nº 8.989, de 24 de fevereiro de 1995. Dispõe sobre isenção de IPI na compra de automóveis por pessoas com deficiência e com TEA (efeitos até 31/12/2026). Planalto.
- STJ — REsp 2.185.814 — Segunda Turma (13/05/2025). Isenção de IPI não depende de restrição na CNH. STJ Notícias.
Perguntas frequentes (FAQ)
Planos de saúde podem limitar sessões de ABA ou fonoaudiologia para autismo?
Escola particular pode cobrar mensalidade maior para aluno autista?
Servidor municipal tem direito a reduzir jornada para cuidar do filho com autismo ou deficiência?
Equoterapia e musicoterapia são obrigatoriedade dos planos de saúde?
Existe decisão que reconheça TDAH como deficiência?
O plano pode se recusar a contratar por causa do diagnóstico de autismo?
Revisão editorial da equipe do Portal Neurodivergente
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Verbetes mencionados
- Neurodivergência
Termo para quem tem funcionamento neurológico ou mental que diverge do padrão considerado típico, como no autismo, no TDAH ou na dislexia.
- AuDHD
Nome informal para a coexistência de autismo (TEA) e TDAH na mesma pessoa, algo que o DSM-5 passou a permitir diagnosticar em 2013.